O “glamour” da Vida no Exterior

(sem glamour)

Esse tema sempre rende boas discussões e por isso resolvi trazê-lo para cá.

Para quem não sabe eu moro com meu marido e filha no Canadá há quase 2 anos, em uma pequena cidade chamada Kitchener na província de Ontário.

Esqueça os nômades digitais

Preciso começar esse texto dizendo que ele nada tem a ver com nomadismo digital e o famoso “trabalhe de onde quiser”, esse assunto eu deixo para o @matheus de Souza que fala sobre isso com propriedade.

Eu quero falar para aqueles que pensam em migrar sua vida para outro país, sua carreira, sua família. Ter um endereço fixo, construir uma história, por isso é importante dizer que nada tem a ver com nomadismo.

Sempre gosto de deixar claro que para te esse desejo de morar em outro país não significa que você tenha algo contra o seu país de origem, significa apenas que você tem vontade de viver experiências diferentes, de conhecer culturas diferentes e principalmente passar um tempo em um lugar eu você acredita que está alinhado com seus valores.

Está tudo bem não ter esse sonho

Nem todo mundo tem vontade de sair pelo mundo viajando ou conhecendo outros lugares, e está tudo bem.

Preciso falar isso pois senão parece que quem está feliz onde está e não tem esse sonho está fora da realidade.

Na minha opinião é ao contrário, a pessoa que enxerga os benefícios de permanecer onde está enxerga claramente quais são os impactos e as dificuldades de “largar tudo” e começar uma nova vida em outro lugar, com menos amigos, familiares e conterrâneos.

Se você é uma dessas pessoas, saiba que não tem nada errado com você.

O preço é alto

Muito se fala do glamour, das vantagens, da maravilha que é morar fora, e pouco se fala sobre o preço que se paga para viabilizar isso.

O preço monetário mesmo, não só o subjetivo. Quando você pesquisa os países que se encaixam em seu projeto de residência, você investe tempo e dinheiro para garantir seu “passe livre” para tal.

Vou dar o Canadá como exemplo, não é um país “procurando por imigrante”, mas é um país que possibilita que você more aqui legalmente, para isso você tem alguns caminhos, em todos você precisa investir.

No nosso caso, custou um curso de pós-graduação de 1 ano, 18 mil dólares. Além do curso, para ter o visto precisamos comprovar que tínhamos renda suficiente para nos mantermos por pelo menos um ano, dinheiro comprovado em conta bancária, não em bens.

Para fazer disso uma longa história curta, entre vistos, documentos, traduções, passagens e afins, foram 250 mil reais investidos. E se não der certo? Não tenho resposta para isso, pois essa opção nunca foi considerada.

Fica claro que não é qualquer profissional ou família que teria esse dinheiro para investir em um projeto desse, por isso frases como “qualquer um consegue, basta querer” me tiram do sério.

Sem contar o que você precisa abrir mão que não é diretamente monetizado.

Você muda para um clima diferente, aqui onde moro são 5 meses de inverno rigoroso com neve, quase sem ver a luz do sol.

Você se despede da família e dos amigos sem saber quando os terão por perto novamente. Você está por sua conta e risco.

Sem falar do que você faz com sua carreira. Essa sem dúvida é uma das minhas maiores dores.

Recomeçar “literalmente” do zero

Eu sei que essa frase de “começar do zero” é péssima, pois o que você aprendeu e carrega consigo vale alguma coisa, sim, mas se você não está num trabalho para aplicar tudo isso, o valor disso é quase zero.

Ao trocar de país, com cargos maiores, onde você já se sentia realizado profissionalmente o desafio é imenso. O mercado de trabalho é diferente, as exigências para a função, os softwares, as ferramentas de uma maneira geral, isso faz com que você tenha um processo de aprendizado até “chegar lá” novamente.

Claro que algumas funções com alta demanda no país acabam encurtando esse caminho, mas para a grande maioria das pessoas, é um processo lento.

As diferenças começam nos processos seletivos, que são mais lentos, que possuem dinâmicas diferentes do Brasil e que você leva um tempo para performar bem.

Tudo isso sem falar no ponto crucial dessa mudança: o idioma.

O idioma

Você pode até achar que sabe inglês, francês, espanhol, quando você muda pro país que fala o idioma e entra na velocidade dos nativos, você percebe que sabe menos do que imaginava.

Estudar, ler, aprender mais e mais será seu objetivo de vida, até se sentir mais pertencente ao idioma local.

Eu costumo falar para as pessoas daqui quando tenho mais intimidade que eu sou “engraçada” em português, e que um dia espero ser em inglês também.

Conhecer expressões, a história e os costumes do local, leva tempo, não se engane.

Mas ao mesmo tempo, gosto de lembrar que é minha segunda língua, eu já falo português, muitas vezes estou falando com alguém que fala só inglês, e que enxerga o fato de falarmos dois idiomas, um diferencial.

A cultura

Escolher o país certo para você e sua família não é uma tarefa simples, nem de sorte. Essa escolha exige muita pesquisa prévia, afinal você não quer cair de paraquedas em um país que vai contra todos os seus valores morais.

As possibilidades de pesquisa hoje em dia são inúmeras, desde perfis em mídias sociais, sites de busca, fóruns, mídias tradicionais, tudo que puder somar para embasar sua decisão, deve ser utilizado.

Definir o lugar que tem mais chances de sucesso é um ato de inteligência.

Claro que a decisão não precisa ser para sempre, você pode escolher um local e mudar de opinião com o tempo e ir para uma segunda opção, mas também vale lembrar que quanto mais adaptado você e sua família estiverem, mais difícil será recomeçar em outro lugar.

O ideal é escolher bem de primeira.

A saudade

Somos latinos, gostamos de contato, de festas, de comida boa, de calor. Tudo será praticamente uma memória distante quando você se mudar para um país como o Canadá.

Você sentirá falta das coisas mais banais, que não dava valor no seu país de origem. Falará cada vez menos com seus amigos e familiares e criará laços mais superficiais com os locais.

Como administra essa sensação? Lembrando seus motivos de mudança, o que te trouxe até aqui, valorizando suas pequenas vitórias diárias e analisando se você está dentro do plano que idealizou para sua família.

Você nunca mais estará 100% em um lugar, seus pedaços estarão pelo mundo, mas se esse for um objetivo de vida seu, posso dizer que valerá a pena.

Resumindo

– Pesquise suas opções de imigração

– Calcule quanto dinheiro precisará para essa empreitada

– Trace um plano

– Junte o dinheiro necessário

– Estude o idioma o máximo de tempo que conseguir

– Prepare-se para voltar alguns passos na carreira

– Aproveite os bons momentos com os amigos e familiares

Essa é a minha história, sem glamour, sem grandes atingimentos profissionais, mas com muita certeza de ter feito a melhor escolha para minha família.

Nem tudo é sobre dinheiro.

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